A Copa do Mundo 2026 nem começou, mas a "febre" a cada quatro anos da troca de figurinhas dos jogadores do álbum do Mundial já começou. No exterior, um cromo de Cristiano Ronaldo virou item de luxo, raro e disputado, já no Brasil a empresa responsável pela produção das figurinhas anunciou que colocará Neymar em uma versão atualizada da coleção elaborada após o anúncio dos 26 jogadores que irão disputar o hexa.
Isso porque na primeira leva, o atacante do Santos ficou de fora. Enquanto isso, a troca de figurinhas ganhou os shoppings e as ruas das cidades. E engana-se quem pensa que a "febre" atinge apenas crianças. Muitos pais também entraram no clima e se juntaram aos filhos, o que para a psicologia é um "ritual de pertencimento com data marcada".
"A Copa cria uma janela curta (seis semanas) em que o mundo inteiro está olhando para a mesma coisa ao mesmo tempo. E o álbum funciona como um objeto físico que traz esse acontecimento gigante para dentro de casa, no tamanho da mesa da cozinha", resume psicanalista e especialista em comportamento humano Lucas Scudeler ao Purepeople.
Para ele, a figurinha em si não é aquilo que de fato une pais e filhos. "É o fato de existir, finalmente, um projeto compartilhado com regras claras, objetivo comum e prazo definido. Isso é raríssimo na vida moderna. Pai e filho normalmente vivem em agendas paralelas. Quando o álbum aparece, eles têm motivo legítimo para sentar juntos, conferir, planejar, comemorar. A figurinha é desculpa. O encontro é o que importa", aponta.
De acordo com o psicanalista, pais e filhos ficam no "mesmo nível por algumas horas" por conta do álbum. "Não é o pai ensinando o filho a fazer dever de casa. Não é o filho pedindo permissão para alguma coisa. Os dois estão na mesma mesa, com o mesmo objetivo, sujeitos à mesma sorte do pacotinho. Isso achata a hierarquia de um jeito saudável", avalia.
"E aí entra o que mais importa: a criança vê o pai se entusiasmar por algo simples. Vê o pai negociar uma figurinha, comemorar uma rara, ficar frustrado com cinco repetidas seguidas. Ela aprende, sem aula, que adulto também tem desejo, paciência, frustração e alegria. Esse modelo vivido vale mais do que mil conversas. É um dos raros momentos em que o pai ensina sendo, não falando", acrescenta.
E Scudeler vai além: "(A troca de figurinhas) Não é só nostalgia. É reencontro com uma parte sua que a vida adulta empurrou para o canto. O adulto que se emociona com uma figurinha não está fugindo do presente - ele está lembrando que existe dentro dele um menino ou uma menina que sabia se encantar com pouco. E esse reencontro é terapêutico".
"Tem outra camada ainda: quando o pai abre o pacote junto do filho, ele está oferecendo à criança um pedaço da própria infância. É como dizer 'isso aqui me marcou, e agora eu compartilho com você'. Vira herança afetiva. Daqui a vinte anos, o filho vai lembrar não da figurinha, mas do pai abrindo o pacote com ele. A figurinha some. O pai na cabeceira da mesa fica", conclui o especialista.