Durante muitos anos, houve um erro silencioso na teledramaturgia brasileira que hoje já não passa despercebido e que a Globo, aos poucos, deixou de repetir: a baixa presença de atores negros em papéis de destaque.
Esse padrão, que durante décadas foi naturalizado, ainda aparece de forma evidente em 'Avenida Brasil', um dos maiores sucessos da TV, mas que também carrega marcas de um tempo em que a representatividade engatinhava.
Em 2012, quando a novela foi exibida originalmente, a emissora ainda não tratava com o devido cuidado a diversidade racial em suas produções, especialmente no que diz respeito a personagens que fugissem de estereótipos. E o que mais chama atenção é que o cenário da trama é justamente o subúrbio carioca, espaço que, convenhamos, é majoritariamente ocupado por uma população negra.
Dentro desse contexto, poucos nomes negros ganharam destaque na novela — e, ainda assim, em papeis típicos do estereótipo popular: empregados ou boa vida.
Nesse quesito, Cacau Protásio brilhou como a empregada Zezé. Seu talento cômico foi inegável e ultrapassou o roteiro, especialmente em momentos espontâneos que viralizaram, como a cena em que canta de forma errada a música do 'amendoim', transformada em meme.
Ainda que isso tenha projetado sua carreira, também reforça como personagens negros estavam frequentemente ligados ao humor e à submissão.
Outro destaque foi Aílton Graça, que viveu o carismático Silas, namorado de Monalisa, personagem de Heloísa Périssé. Mesmo com seu talento já reconhecido, o ator ainda orbitava dentro de um núcleo secundário.
Esse tipo de construção não era exclusividade de 'Avenida Brasil', mas um reflexo de uma televisão que, por muito tempo, ignorou a composição real da sociedade brasileira. E quando essa ausência começou a ser mais questionada, o impacto foi imediato.
O exemplo mais aterrorizante veio justamente de João Emanuel Carneiro, autor de 'Avenida Brasil', com 'Segundo Sol', cinco anos depois.
Ambientada na Bahia, estado com forte presença da população negra, a novela foi alvo de críticas justamente pela baixa representatividade racial. Embora não tenha sido flopada, essa discussão se tornou uma marca difícil de limpar.
Hoje, o cenário já apresenta mudanças mais consistentes. Produções recentes, como 'A Nobreza do Amor', mostram um esforço claro em construir elencos mais diversos, com núcleos majoritariamente negros e personagens em posições de protagonismo, complexidade e destaque. Essa transformação não apaga o passado, mas indica uma evolução importante, ainda que tardia.