Uma das perguntas que mais tem persistido ao longo do tempo para o ser humano é o que é a felicidade. Todos, sem exceção, a buscamos. Mas nem todos a encontram, por mais que a procurem.
Na filosofia, essa pergunta teve muitas respostas. Para Immanuel Kant, não é um desejo, mas um dever.
Para Byung-Chul Han, vem com o trabalho manual; e para Nietzsche, a felicidade não é um estado de prazer passivo, mas uma experiência dinâmica de crescimento pessoal e superação.
Quando Nietzsche disse, no aforismo 2 de “O Anticristo”, sua obra escrita em 1888, que “a felicidade é a sensação de que o poder aumenta, de que se supera a resistência”, ele não se referia a dominar ninguém nem ao poder sobre os outros, mas à força vital, ao crescimento e ao desenvolvimento de nosso potencial máximo.
Para o filósofo alemão, a felicidade não é estar bem, mas crescer. É superar-se e sentir que se avança.
No livro, ele define o que é bom, o que é mau e o que é felicidade em termos vitalistas, e rejeita completamente qualquer natureza hedonista da felicidade. Ou seja, não se trata de buscar o prazer nem de evitar a dor.
A felicidade é um processo mais ativo que nada tem a ver com o que nos rodeia ou com o que temos, mas sim com quem somos e com quem nos tornaremos. Para Nietzsche, a felicidade não é uma meta nem um objetivo, mas algo secundário que acompanha esse processo de nos conhecermos.
Quando Nietzsche fala de poder, ele se refere a algo muito pessoal. A uma sensação de realização que nos acompanha, por exemplo, quando conseguimos fazer algo que nem imaginávamos.
Quanto à resistência que ele menciona, refere-se aos obstáculos no caminho, ao próprio sofrimento e ao esforço que fazemos. Vou dar um exemplo pessoal. Quando comecei a fazer escultura, não acreditava que fosse capaz de fazer mais do que uma xícara.
Com minha primeira peça, e depois de sofrer e me esforçar, senti-me realizada. Aquele momento em que consegui é o que Nietzsche chama de poder, a sensação de que você pode fazer mais do que imaginava. A resistência seria toda a frustração do processo, os obstáculos, o medo de não conseguir.
A felicidade autêntica, para o filósofo, é uma superação ativa. Não é chegar ao topo, mas sentir que estamos subindo. Quando Nietzsche se pergunta o que é bom, a resposta é tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, e o mal é o que provém da fraqueza.
É assim que nasce sua definição de felicidade: quando rompemos com o mal, superamos a resistência e nosso poder cresce.
Há um parágrafo do livro que resume perfeitamente tudo isso:
“O que é o bem? Tudo o que eleva no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder. O que é o mal? Tudo o que provém da fraqueza. O que é a felicidade? O sentimento de que o poder aumenta; o sentimento de ter superado uma resistência. Não a satisfação, mas mais poder; não a paz em geral, mas a guerra; não a virtude, mas a capacidade”.
Nietzsche resume a filosofia da ação, a teoria da motivação e a ética do esforço em um único parágrafo. E também a psicologia positiva.
A psicologia do século XX levou décadas para demonstrar empiricamente que era assim, com a mentalidade de crescimento de Carol Dweck, que nos convida a superar-nos apesar dos obstáculos, ou com a teoria da autodeterminação de Richard M. Ryan e Edward L. Deci, que afirma que, quando autonomia, competência e conexão se completam, prosperamos. Ao fazê-lo, sentimo-nos realizados e, portanto, felizes.
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