Nesta sexta-feira (28), relembramos um dos momentos mais ousados da história do Carnaval carioca. Um desfile que gerou choque, aplausos e uma mudança drástica no regulamento das escolas de samba. Ficou curioso para saber quem protagonizou esse escândalo icônico? Vem que a gente te conta!
As informações são do Jornal O Globo e nos levam de volta a 1989, quando a nudez tomou conta da Sapucaí de uma forma inédita. Enoli Lara, destaque da União da Ilha, atravessou a Avenida completamente nua, usando apenas botas, no carro "Roma Pagã". A repercussão foi imediata e fez com que a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) proibisse, a partir de 1990, a "genitália desnuda" nos desfiles.
Mas se achavam que a regra ia segurar a ousadia no Carnaval, estavam enganados. No ano seguinte, uma figura icônica resolveu desafiar a proibição e fez história.
“Bicha, não, meu amor, que eu sou uma quase... mulher”. Era com essa frase provocativa que Jorge Lafond, ou melhor, sua personagem Vera Verão, entrava nos lares brasileiros nos anos 1980. Mas foi na Avenida que ele abalou estruturas e mexeu no vespeiro social brasileiro.
No Carnaval de 1990, a Beija-Flor levou para a Sapucaí o enredo "Todo mundo nasceu nu", assinado por Joãosinho Trinta. Como símbolo maior da mensagem, Lafond surgiu do alto de um vulcão, nu, com a genitália apenas pintada. A ousadia foi tanta que a Liesa reforçou ainda mais o regulamento, proibindo qualquer forma de nudez – "desnuda, pintada ou decorada".
No fim da apuração de 1990, a Beija-Flor se sagrou vice-campeã, ficando atrás apenas da Mocidade Independente e seu inesquecível "Vira, virou, a Mocidade chegou", primeiro título do carnavalesco Renato Lage à frente da agremiação de Padre Miguel.
Esse episódio virou um divisor de águas no Carnaval e é lembrado até hoje como um dos momentos mais transgressores da Sapucaí.
Décadas depois, o feito continua sendo exaltado nas redes sociais. "Esse desfile foi um tapa na cara do conservadorismo da época!", confirmou um internauta no X, antigo Twitter. Outro relembrou: "Mudou as regras e mostrou que Carnaval também é sobre resistência." "Se hoje temos liberdade para expressar nossa arte, devemos muito a esse momento!", afirmou mais um.
Jorge Lafond fez história na Sapucaí não apenas por esse episódio da nudez censurada, mas também por suas passagens marcantes pela Beija-Flor de Nilópolis e Imperatriz Leopoldinense. Em 2002, foi coroado madrinha de bateria da Unidos de São Lucas, no Carnaval de São Paulo.
Hoje, sua trajetória é reconhecida como um marco na luta antirracista e contra a LGBTfobia. Lafond nos deixou em janeiro de 2003, mas sua ousadia segue viva na memória do Carnaval e de todos que entendem a importância de sua resistência.