Muito antes de virar o "rei dos memes" por seu estilo de vida extravagante, Nicolas Cage já era uma lenda em Hollywood por sua habilidade em transformar cachês astronômicos em coleções, digamos, peculiares. No patrimônio do astro de "A Lenda do Tesouro Perdido" e "Despedida em Las Vegas", até aquele momento, cabia de tudo: castelos na Europa, iates, HQs raríssimas, cabeças encolhidas e até uma ilha particular!
No entanto, nenhum desses itens rendeu tanta história quanto um crânio de dinossauro de 70 milhões de anos. Comprado em 2007, o fóssil acabou se tornando o centro de uma crise diplomática anos depois, quando as autoridades americanas descobriram que a peça havia sido contrabandeada ilegalmente da Mongólia. Sim, foi isso mesmo que você leu. Eita!
De acordo com a CNBC, Cage desembolsou a bagatela de US$ 276 mil pelo artefato em um leilão da galeria I.M. Chait, em Beverly Hills. Tratava-se de um crânio de Tyrannosaurus bataar (também conhecido como Tarbosaurus), um "primo" asiático do T-Rex que só é encontrado no Deserto de Gobi.
O caso ganhou ares de fofoca de alto escalão por um detalhe: para levar a peça para casa, Cage teria vencido ninguém menos que Leonardo DiCaprio em uma guerra de lances. O episódio, amplamente divulgado pela imprensa internacional, só serviu para cimentar a fama de Cage como o colecionador mais compulsivo e excêntrico do cinema.
Na hora da compra, tudo parecia dentro da lei. Cage recebeu o certificado de autenticidade e não tinha a menor ideia da origem ilícita do fóssil... tanto que o ator nunca foi alvo de qualquer acusação criminal.
O castelo de cartas começou a cair anos mais tarde. Investigadores do Departamento de Segurança Interna dos EUA descobriram que o crânio era fruto de uma rede internacional de tráfico de fósseis. Segundo a CNN, as autoridades procuraram Cage em 2014 após rastrearem a peça, concluindo que ela saiu da Mongólia com documentos falsos.
O esquema foi ligado ao paleontólogo Eric Prokopi, condenado por contrabandear fósseis mongóis. Sem hesitar, em dezembro de 2015, Cage concordou voluntariamente em entregar o item para que ele fosse devolvido ao seu país de origem. "Ele cooperou totalmente com a investigação", reforçou sua assessoria na época.
Apesar da boa vontade em devolver o patrimônio histórico, o prejuízo financeiro deixou uma marca amarga. Em entrevista à New York Times Magazine (reproduzida pelo UOL), Cage desabafou: “Eu tive que devolver. É claro que o crânio tinha que ficar no seu país de origem, mas como eu poderia saber que ele foi tirado de lá ilegalmente?”.
Ele não escondeu a frustração pelo rombo na conta bancária: “Eu nunca recebi meu dinheiro de volta. Isso foi terrível”. Mais tarde, em conversa com a NME, o tom foi de revolta: “Alguém daquela casa de leilões deveria estar na cadeia”.
Para além do valor monetário, a peça era um tesouro científico. Documentos do processo revelam que o crânio tinha cerca de 81 centímetros de comprimento e estava 65% completo. Na Mongólia, fósseis de Tarbosaurus bataar são considerados patrimônio nacional, e sua exportação é estritamente proibida por lei desde 1924.
O episódio do dinossauro acabou virando o grande símbolo da fase mais "gastadora" de Cage. A CNBC recorda que, no auge, o ator acumulou uma fortuna de US$ 150 milhões, diluída em dezenas de propriedades e luxos exóticos ao redor do globo.
Esses gastos excessivos foram o estopim para os problemas financeiros que o astro enfrentaria anos depois. Mas, curiosamente, Cage tirou uma lição filosófica do prejuízo. Segundo ele, o imbróglio despertou um interesse profundo por arqueologia e mitologia. "Eu comecei a seguir esses temas mais de perto", confessou ao New York Times, provando que, mesmo perdendo o dinossauro, ele não perdeu a curiosidade pelo que é raro.
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